A CIÊNCIA DOS CALDOS BASE

Aprender o significado e os porquês de cada reacção constitui, por si só, uma valiosíssima ferramenta de trabalho.

O que são? Os caldos são a base de toda a cozinha, isto é, para quase todas as elaborações eles estão presentes, seja num prato de carne, peixe, arroz ou outro.

SOU FOODIE. E AGORA?



Publicado originalmente no ETASTE 

Ou na forma mais completa: Foodie, Blogger, Instagrammer- FBI
E agora? Agora acaba de se inscrever - ainda que de uma forma substancialmente abstrata- num clube privado, cheio de estilo, moderno e in.

Já comprou o fato? E a lanterna para o telemóvel? E o talher especial? aquele dourado! Não se esqueça da caneta cara e de um bloco A5 para toda a gente perceber que irá tirar apontamentos. Os óculos são imprescindíveis, mesmo que não precise, dá sempre um certo ar intelectual de cagança exigente. Escreva uma lista de chefes e restaurantes, leve-a no bolso, quando entrar pergunte se o chefe está, tratando-o pelo primeiro nome, como se fossem amigos de infância, se não estiver convém manifestar revolta e desdém. Coloque o termómetro infravermelho em cima da mesa para verificar a temperatura dos vinhos e vá apontando, mesmo não percebendo nada, espalha o seu charme. Durante o jantar mantenha a aparência, não se coiba de explanar os seus conhecimentos que, regra geral, são vastíssimos.

Vejamos o exemplo abaixo que aconteceu na realidade:
FBI: -Este peixe foi cozinhado com manteiga clarificada?
Empregado: - Sim.
FBI: - Eu logo vi! Senti um aroma profundo, picante e ligeiramente adocicado.

Seja bem-vindo:
Agora poderá reservar num qualquer restaurante, a qualquer hora, basta para isso dizer que é FBI ou outra barbaridade qualquer, numa tentativa de chamar à atenção dos profissionais que lá trabalham. Pode ser que tenha sorte e receba um tratamento VIP. Certamente porá os cozinheiros a tremer das facas só de pensarem na sua visita e nas poderosíssimas ferramentas que tem ao seu dispor.

Obrigatório também, será criar um blog giro, com um bom design, um logótipo construído à medida, um ou outro parágrafo introdutório, daqueles que massajam o ego. Enfeitá-lo também com a opinião de alguém (com credibilidade de preferência) sobre o autor e de toda a sua magnificência autoral. Por último, criar conteúdo útil: -Ah, útil? Mas isso ninguém lê! Basta publicar uma superficialidade de vez em quando, só para manter a atividade. Sabe como é, os meus Followers são muito exigentes.

A partir daqui poderá fazer publicidade, irá ficar milionário certamente, não há esquema em pirâmide que resulte melhor! Qual American Dream qual quê! Sim, basta mostrar que as empresas querem colaborar consigo, nem que seja por 100 Gr de entremeada do Senhor Alfredo, o do talho, mais do que suficiente para uma publicação a transbordar de elogios e vénias líquidas.

Quando alguma refeição correr mal já pode ameaçar abanando o telemóvel e com um sorriso matreiro dizer apenas: - não vai ficar por aqui! Provavelmente irão pagar-lhe a conta ou então se forem inteligentes ouvem-no como ouviriam outro cliente qualquer. Se forem verticais e honestos não irão revelar por si especial atenção, o que o deixará furioso na mesma, afinal é o temido FBI que goza de excelente reputação, na sua rua, ou na melhor das hipóteses na paralela à sua. Sairá frustrado por pagar a conta.

Inconsciência. Bingo! tem o requisito principal. Não sabe descascar uma cenoura, mas já descasca no trabalho dos profissionais que já de lá vêm. Já se junta à devassa cibernética quando um profissional não sabe qual é origem do mangostão ou que fica na dúvida de quem nasceu primeiro se foi o ovo ou a galinha. Mas mesmo não tendo qualquer credibilidade nem legitimidade descasque! Será aplaudido certamente por outros FBI.
Por isso, tenham cuidado, muito cuidado!

Desde há muitos anos que me habituei a ler: José Quitério, David Lopes Ramos, Fernando Melo, Virgílio Gomes, Maria Fátima Moura, Miguel Pires, entre outros.
O que têm em comum? Para além de dominarem a escrita, gozam de credibilidade, bom senso e conhecimento.  
À parte disto existe um mundo novo, incontrolavelmente lamacento e confuso. A necessidade de se distinguir o trigo do joio torna-se, hoje, um imperativo. Marco Pierre White disse um dia que estava cansado de ser constantemente criticado por pessoas que sabiam muito menos que ele. Será passado, presente ou futuro? Passado não será certamente.