CONGRESSO DOS COZINHEIROS - 2018

Aconteceu no lx factory, em Lisboa, nos dias 1 e 2 de outubro.



Trata-se do Congresso Nacional de Cozinheiros, o qual reúne alguns dos melhores profissionais do sector a nível nacional e internacional.


A sua missão, encetada em 2005, mantém-se intacta: reunir o sector.


Não vou discorrer sobre cada uma das apresentações, realçarei apenas alguns pontos positivos e um menos positivo.  Não estive, com muita pena minha, até ao final do segundo dia.  De uma forma geral, este ano, o congresso assentou em três ideias: produto, sazonalidade e desperdício.







COMIDA ESCRITA



Coração
Ó tu que tens o coração nas mãos!
Ouve os sinos enferrujados! Anunciam de lá as missas das atrocidades e dos sermões mal contados. 
Tiranias cantadas e uns vinhos cuspidos atrás do altar das promessas. 
De palmadinha em palmadinha, vão entrando para ouvir - de coração - os missionários poderosíssimos, pioneiros na frívola sensação pacata de nada fazer. 
Basta sonhar,diz o padre do altar!
Basta acreditar, diz o leigo defronte à Santa injustiça! 
Não rezo e não entro.
Faço e procuro.
Abro o dicionário e vejo que "altar" rima com "pastar".
Faz-se luz no meu cérebro! Deito-me e adormeço. 
É isto um snack. Para comer de boca fechada.




A Cebolinha

Genialidade quente e amorosa na simplicidade nua e fria.
Quanta magia no tempo do sóbrio acto!
Quanta sobriedade na irrealista verdade absoluta de querer tudo e nada possuir!
Quanta realidade na vida para lá do que está morto e enterrado!
Quanta verdade renasce agora sobre o que se enterrou!
Não há magia, sobriedade, realidade nem verdade,
há tempo para saborear a magia da irrealidade absoluta do que está enterrado e que agora ressurge como aquilo que simplesmente não nasceu.



Atum

De atum em atum, a vida vai-se escrevendo.
Nos laços da amizade, entrelaçam-se os nabos da colheita hibernal. 
Estonteante alegria dos gemidos que voam em eco, na espuma que era do mar e que agora é de bivalve. 
Será para sempre um entrelaçado de peixe, carregado de pecado ceremonioso e elegante.
Será para sempre o que tu e eu quisermos, porque da vontade se faz o desejo e do desejo nasce a vontade. 
Mesmo que não haja vontade...Deseja!
Afinal de contas, desejar não é nada mais do que ter vontade de avançar sem hesitar!


Caviar

Sim! a vida passa... com ou sem máscara! 
Sim é mentira isso que se come e diz-se comido porque se comeu.
Ilusão pragmática do pensamento que não come, só pensa... quando pensa! Haverá noutra esquina ou lata, quiçá.
Não é necessário sentir o que se come. Não é necessário comer o que se sente.
O que se sente, serve para ser sentido. O que se come, serve para se comer.
Os fracos sentem, os famintos alimentam-se!
Informais formalidades do caviar e outras que tais.
Entretanto... tudo é devolvido numa breve fumarada que se esfuma, porque não queima, nem fica!
Eu não como, nem sinto, porque não tenho fome nem de uma coisa nem de outra.



Lavagante

Ó bicho mete o cone na cabeça!
Mete! 
Protege o teu despótico juízo! 
Achavas-te o maior dos seres nas profundezas oceânicas? 
Achavas-te protegido pelo breu do luar ao cabo do bojador? 
Acalma-te.Dizem por lá que terás outra oportunidade.
A rede que te pescava partiu. 
Mas não te alegres! 
Irás, em breve, para a pátria que te pariu.
Por fim, nada restará de ti além da planta que sobre o teu chapéu floriu.





Endívia

Aprecio o som das endívias, sem boca, nada dizem, mas eu gosto de ouvir o que têm para dizer.

Não é fácil confrontar a natureza destas espécies.
Para as trabalhar usa-se sempre sal, do sincero, não ficam muito boas, confesso, pedem sempre um pouco de açúcar, do falacioso.

Como nunca acreditei nas frigideiras da civilização, prefiro definhar com a hipertensão.
Não permito amarelar ou corromper o meu esqueleto com o açúcar calmo, doce e eternamente movediço. 
Posso lambuzar os meus olhos de mel e sentar-me confortavelmente no sofá de rosas...? claro que sim! posso tanta coisa afinal!

Mas não posso,nem consigo, esquecer-me de duas coisas :
os olhos lavam-se,
as rosas secam,
sempre.





 Vacas

São muros fortes, colinas íngremes, pântanos lamacentos. 
Vacas a passar, bois a pastar.

No fim de cada meta há o suor dos que quebram os muros. 
Do cimo de cada colina vê-se a imensidão provocadora do Deus do sol.

O pântano não é, nem será, mais escuro na hora de recolher, para os bois, que enlameados seguram a vaca na mão.

De prato partido e de faca quebrada, há nisto o mistério da fome deslumbrada.

Esta é a vaca desnaturada que por acaso é maturada