PAI NOSSO QUE ESTAIS NO CÉU, SANTIFICADO SEJA O VOSSO..

Digamos que, em pleno séc. XXI, o tema «Motivação» continua a ser tabu. Para espanto ou desagrado do leitor este continua a ser um debate que estremece os grandes velhos do Restelo, de sorriso amarelo. 
“Gosto de falar no plural, eu e a minha equipa“ ou "não me posso esquecer da minha equipa, eles são o mais importante para mim" estescontinuam a ser dos jargões mais utilizados para agrado das revistas cor-de-rosa e consequente vénia dos transeuntes menos informados, cá do burgo. A ironia está lá sempre, disfarçada por entre algumas patacoadas nervosas. Por cá, do outro lado da civilização menos representada, embora mais representativa, existe um certo desprezo para com essas lindas frases (lindas mesmo!) , porque na prática, sabemos que se resume (na maior parte das vezes) a um mero SLOGAN político. Nos casos mais sensíveis uma lágrima pode cair do canto do olho, mas depois passa. 
Mas afinal o que é isso de motivação ? Pagar uma bifana e uma palmadinha nas costas? Não. Um sor…

APERTAR O AVENTAL



Originalmente publicado no ETASTE
Mais certos ou menos errados, mais apertados ou menos largos, são sempre nós, com muitos significados! Há centenas de anos que o avental marca uma revolução decisiva e duradoura como a teimosia higiénica de quem a impôs. Foi a inovação de ontem, é o habitual hoje, será a renovação do amanhã, simboliza o trabalho. O avental representa a estrutura complexa que esbarra na simplória vontade de bem parecer, cuja função, vai muito além da barreira às nódoas, do trabalho bruto e por vezes sujo.
Um dos gestos mais simples e bonitos que ainda perdura na minha memória, aconteceu no primeiro dia da minha vida profissional e advém precisamente da observação do meu primeiro chefe, que à entrada da cozinha apertava o avental branco e impecavelmente limpo, contra o peito, de mãos lestas a abraçar o quadril. Aos meus olhos aquela rapidez gestual conquistada pela repetição exata ao longo dos 30 anos de carreira, parecia-me um movimento tão inato como a vida, tão repentino como a morte… daqueles que o penduram atrás da porta, outros demais fingidores cozinheiros!
Está para nós como a armadura está para o soldado, de arma em punho. Lados iguais, lutas diferentes. São estes nós, de mãos atrás das costas que nos distinguem na vida terrena, enquanto mortais que somos. É a divisão entre a realidade normalmente suprema e a irrealidade realmente verdadeira e concreta. Será, por esse mundo fora, o momento das partidas e chegadas, o início… de um amanhecer ao som da faca na pedra, da matéria-prima ao colo, a chama do fogão – o que completa cada novo dia, cada nova melodia. São estes nós que se sustentam na firmeza rude e crua do pescoço nu. São sempre mais do que nós, muito mais! Representam o encetar de uma missão nobre, lúcida e objectiva, esta, de servir pessoas. Fitas esganadas em movimentos subtis, afastadas dos nossos olhos, por isso, a sua beleza mímica escapa muitas vezes.
A entrega desta peça, numa nova cozinha, carrega sempre para mim uma motivação extra, pois a partir daquele momento solitário em que dou o nó sinto-me pronto para enfrentar um novo cenário, novamente protegido, convicto e esperançado até por este velho sentimento que trespassa o que é tangível aos dedos que o sustentam sempre limpo, escorre-me pelos ombros como ritual cumprido e unido na devoção a esta quase religião, longe das espiritualidades, perto das individualidades que servem os momentos aos espaços mais ou menos luxuosos, mais ou menos modestos.
Nós mais nervosos que se desprendem à mesma velocidade que combatemos, com ansiedade… naquele mundo, são fiéis escudeiros que estão sempre na linha da frente para nos proteger.
Não há ciência que explique a nudez que sentimos, sem eles… não somos mais do que meros vultos desprotegidos, gélidos, ao acaso. É afinal através destes pedaços de pano que nos debatemos com a metafísica dos pedaços de vida.