CRIATIVIDADE (IN)CONSCIENTE

Publicado originalmente no ETASTE
Surge de forma consciente ou inconsciente. A parte consciente, a que controlamos, é gerida pelo lado mais racional, normalmente fechada sobre si. É o resultado do natural processo cognitivo. Esta pode ser afetada por fatores externos e até próprio estado de espírito. A parte inconsciente, a que não dominamos e nem sequer conhecemos verdadeiramente, é a responsável pelo nosso lado mais infantil e primitivo de toda a associação de ideias. Juntas são nada mais nada menos que sistemas organizados, quase automáticos na forma e no lugar. Servem-nos para agilizar o processo que se quer tão lento quanto possível.
Lentidão é a palavra-chave. A rapidez perturba quase sempre a tomada de decisões. Por isso não é bem-vinda, apenas na execução. A lentidão é por isso benéfica, pois resulta frequentemente, em vários processos difusos que se acumulam na desordem. A confusão ou mudança de perspetiva é obrigatória. A partir destas haverá, naturalmente, um início, e com is…

APERTAR O AVENTAL



Originalmente publicado no ETASTE
Mais certos ou menos errados, mais apertados ou menos largos, são sempre nós, com muitos significados! Há centenas de anos que o avental marca uma revolução decisiva e duradoura como a teimosia higiénica de quem a impôs. Foi a inovação de ontem, é o habitual hoje, será a renovação do amanhã, simboliza o trabalho. O avental representa a estrutura complexa que esbarra na simplória vontade de bem parecer, cuja função, vai muito além da barreira às nódoas, do trabalho bruto e por vezes sujo.
Um dos gestos mais simples e bonitos que ainda perdura na minha memória, aconteceu no primeiro dia da minha vida profissional e advém precisamente da observação do meu primeiro chefe, que à entrada da cozinha apertava o avental branco e impecavelmente limpo, contra o peito, de mãos lestas a abraçar o quadril. Aos meus olhos aquela rapidez gestual conquistada pela repetição exata ao longo dos 30 anos de carreira, parecia-me um movimento tão inato como a vida, tão repentino como a morte… daqueles que o penduram atrás da porta, outros demais fingidores cozinheiros!
Está para nós como a armadura está para o soldado, de arma em punho. Lados iguais, lutas diferentes. São estes nós, de mãos atrás das costas que nos distinguem na vida terrena, enquanto mortais que somos. É a divisão entre a realidade normalmente suprema e a irrealidade realmente verdadeira e concreta. Será, por esse mundo fora, o momento das partidas e chegadas, o início… de um amanhecer ao som da faca na pedra, da matéria-prima ao colo, a chama do fogão – o que completa cada novo dia, cada nova melodia. São estes nós que se sustentam na firmeza rude e crua do pescoço nu. São sempre mais do que nós, muito mais! Representam o encetar de uma missão nobre, lúcida e objectiva, esta, de servir pessoas. Fitas esganadas em movimentos subtis, afastadas dos nossos olhos, por isso, a sua beleza mímica escapa muitas vezes.
A entrega desta peça, numa nova cozinha, carrega sempre para mim uma motivação extra, pois a partir daquele momento solitário em que dou o nó sinto-me pronto para enfrentar um novo cenário, novamente protegido, convicto e esperançado até por este velho sentimento que trespassa o que é tangível aos dedos que o sustentam sempre limpo, escorre-me pelos ombros como ritual cumprido e unido na devoção a esta quase religião, longe das espiritualidades, perto das individualidades que servem os momentos aos espaços mais ou menos luxuosos, mais ou menos modestos.
Nós mais nervosos que se desprendem à mesma velocidade que combatemos, com ansiedade… naquele mundo, são fiéis escudeiros que estão sempre na linha da frente para nos proteger.
Não há ciência que explique a nudez que sentimos, sem eles… não somos mais do que meros vultos desprotegidos, gélidos, ao acaso. É afinal através destes pedaços de pano que nos debatemos com a metafísica dos pedaços de vida.