PAI NOSSO QUE ESTAIS NO CÉU, SANTIFICADO SEJA O VOSSO..

Digamos que, em pleno séc. XXI, o tema «Motivação» continua a ser tabu. Para espanto ou desagrado do leitor este continua a ser um debate que estremece os grandes velhos do Restelo, de sorriso amarelo. 
“Gosto de falar no plural, eu e a minha equipa“ ou "não me posso esquecer da minha equipa, eles são o mais importante para mim" estescontinuam a ser dos jargões mais utilizados para agrado das revistas cor-de-rosa e consequente vénia dos transeuntes menos informados, cá do burgo. A ironia está lá sempre, disfarçada por entre algumas patacoadas nervosas. Por cá, do outro lado da civilização menos representada, embora mais representativa, existe um certo desprezo para com essas lindas frases (lindas mesmo!) , porque na prática, sabemos que se resume (na maior parte das vezes) a um mero SLOGAN político. Nos casos mais sensíveis uma lágrima pode cair do canto do olho, mas depois passa. 
Mas afinal o que é isso de motivação ? Pagar uma bifana e uma palmadinha nas costas? Não. Um sor…

VOCÊ É DA ÉPOCA?


Caro Leitor,

Actualmente, há uma maior delicadeza para a sazonalidade do produto, estaria a mentir se não o referisse. Existe, porém, uma grande demagogia no tratamento do assunto. 
Quanto aos restaurantes em que os cozinheiros vão à pesca de manhã para cozinhar os peixes de seguida, acho realmente engraçado, pelo menos enquanto o sonho durar. Menos graça deve achar o chefe Thomas Keller, pois ele próprio, cumpre o ciclo e produz efectivamente. O leitor pode, com todo o direito, achar este movimento ecologista e moderno, mas se lhe disser que, pese embora noutro formato, já constava no Regula Benedicti do séc. VI escrito por Bento de Núrsia, cuja regra ordenava que se comesse exclusivamente o que se produzia, o caso muda, principalmente quando chegamos à conclusão de que estamos continuadamente prisioneiros dos editoriais mais vendidos.
A exacerbada cagança das velhas novidades vendidas como regenerativas, aproveitadas pelos populistas, incansavelmente desejosos de um espaço na impressora, produzem peças caricatas como a que se segue.
Já se passaram umas semanas desde que quebrei uma promessa: não comprar imprensa generalista! Mas, como cozinheiro, não me resignei a um suplemento de gastronomia, aparentemente bem trabalhado. Contava eu com uma boa leitura. Lidas as primeiras páginas eram inúmeras aleivosias, para o meu pobre e desconsolado cérebro. A dado momento parei na parte em que o entrevistado, cozinheiro de profissão, se autodenominava senhor da sazonalidade e localidade, pensei eu que trabalhava apenas no Inverno, num determinado local. Percebendo o contexto, mudei de ideias, sobretudo quando o que apresentou se limitava a um foie gras com cereja. Ah! Mas afinal o senhor cozinheiro referia-se mesmo às iguarias? Em Outubro? Em Portugal? Na altura fiquei com uma lágrima no canto do olho, acabou por secar e continuei insistentemente absorvendo as novidades da sua cozinha "simples", segundo o próprio.
Desta vez o brilharete noutro prato com batata e um solitário filete de peixe. Pensei para com os meus botões se haveria de lhe dizer para ir semear batatas ou ir à pesca de modo a repensar o seu conceito de simplicidade.
Ninguém é dono absoluto da razão, mas se disserem que procuram usar o máximo de produtos de uma determinada região, se disserem que têm uma cozinha directa... Deixem lá as palavrinhas delusórias e fantasiosas para os cândidos homens iletrados.
Obra de Maria João Faustino ,2016