COMIDA ESCRITA

Coração Ó tu que tens o coração nas mãos! Ouve os sinos enferrujados! Anunciam de lá as missas das atrocidades e dos sermões mal contados.  Tiranias cantadas e uns vinhos cuspidos atrás do altar das promessas. De palmadinha em palmadinha, vão entrando para ouvir - de coração - os missionários poderosíssimos, pioneiros na frívola sensação pacata de nada fazer. Basta sonhar,diz o padre do altar! Basta acreditar, diz o leigo defronte à Santa injustiça!  Não rezo e não entro. Faço e procuro. Abro o dicionário e vejo que "altar" rima com "pastar". Faz-se luz no meu cérebro! Deito-me e adormeço.  É isto um snack. Para comer de boca fechada.



A Cebolinha
Genialidade quente e amorosa na simplicidade nua e fria. Quanta magia no tempo do sóbrio acto! Quanta sobriedade na irrealista verdade absoluta de querer tudo e nada possuir! Quanta realidade na vida para lá do que está morto e enterrado! Quanta verdade renasce agora sobre o que se enterrou! Não há magia, sobriedade, realidade nem verd…

Culinárias Efémeras

Corria  o ano de 2014. Joan Roca questionado sobre a importância de todos os prémios que tem vindo a receber, responde: "-Sabemos que se trata de algo muito subjetivo e efémero.”
Esta frase quase resume todo este texto.

Por todas as cozinhas, o labor é constante, tudo por uma causa: o sorriso dos comensais, reduzindo  horas de trabalho ao rápido movimento de levar o talher à boca.
Coitadismos" à parte, a realidade é mesmo assim.
A efemeridade dos momentos áureos é isto mesmo: célere no tempo, intensa no espaço e falaciosa nos cumprimentos e nas parabenizações protocolares.
Ao protagonista do momento é-lhe imposta a obrigatoriedade ética de surpreender mais. Resta-lhe a responsabilidade de gerir o momento, de possuir a sapiência adequada para tirar o máximo partido dos apupos da multidão abstrata umas vezes, concreta noutras.
Não chegam apresentações pomposas, uma panóplia de frases bem ditas apresentadas a um público sagaz e erudito por definição, apaixonado por qualquer coisa que seja chamada de "confit " ou de "gourmet " confecionado pelo "chef em primeiro lugar no guia do José Manuel". A este mesmo protagonista esperará uma vasta lista de afazeres e novos projetos, salvaguardados pelo agente mais rápido e perspicaz, vendo agora uma ótima oportunidade para engordar os seus rendimentos, não fosse este o seu modus operandi: rentabilizar no curto prazo, a longo prazo a inteligência ou a falta dela ditará a manutenção ou a destruição do pódio.
Muitas vezes, destroem. Percebem que, afinal, não são os " DDT" (Donos Disto Tudo) da culinária. Os agentes procurarão novos pupilos, a rotina regressa ao fogão e a história repete-se.
Talvez a graça da vida seja mesmo esta: a rapidez com que tudo acontece, a necessidade do equilíbrio constante.
A efemeridade do momento continua e continuará aqui ao nosso lado, essa variável positiva que nos recoloca no lugar, que compensa o duro e repreende o tunante. 


Benoît Violier Fonte:www.dn.pt