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Apertar o avental

Originalmente publicado no ETASTE Mais certos ou menos errados, mais apertados ou menos largos, são sempre nós, com muitos significados! Há centenas de anos que o avental marca uma revolução decisiva e duradoura como a teimosia higiénica de quem a impôs. Foi a inovação de ontem, é o habitual hoje, será a renovação do amanhã, simboliza o trabalho. O avental representa a estrutura complexa que esbarra na simplória vontade de bem parecer, cuja função, vai muito além da barreira às nódoas, do trabalho bruto e por vezes sujo. Um dos gestos mais simples e bonitos que ainda perdura na minha memória, aconteceu no primeiro dia da minha vida profissional e advém precisamente da observação do meu primeiro chefe, que à entrada da cozinha apertava o avental branco e impecavelmente limpo, contra o peito, de mãos lestas a abraçar o quadril. Aos meus olhos aquela rapidez gestual conquistada pela repetição exata ao longo dos 30 anos de carreira, parecia-me um movimento tão inato como a vida, tão repe…

Desculpa lá


 Por muita graça que possa ter, é assustador.
Trata-se de uma história verídica.

Acontece no Porto, em plena época alta.
Altura em que todas as mãos são necessárias.

Poderia até alterar o título para “O diário de uma estagiária de 12h", mas fico-me pelo "desculpa lá".

Primeiro dia: A estagiária entra ao serviço, é-lhe explicado todo o funcionamento da cozinha, tudo mesmo, até como ligar o fogão.

Segundo dia: Já foi muito mais exigente, palavras dela, não minhas, a começar pelo horário repartido; no primeiro turno foi explicado o funcionamento de uma determinada partida em detalhe, partida essa que tem 40 tarefas diárias para cumprir em 180min, 10 dessas tarefas seriam para ela.

A mocinha teria que começar por algum lado, para que no final do estágio até quem sabe, ser contratada.

No segundo turno, aparece na cozinha sem estar fardada. Na minha inocência, pensei cá com a minha jaleca: "que mocinha aplicada, vem à civil ajudar a arrumar as compras, sim senhora!" 

Chama por mim: “-Tiago, não venho trabalhar”. De novo o ingénuo pergunta: “-Mas precisas de alguma coisa? Sentes-te bem?" "-Não Tiago, não estás a perceber, não venho mais trabalhar, desculpa lá!"
Perplexo, só me ocorreu "-ok, adeus" após um minuto e uns quantos desabafos à moda do Porto (mas ninguém ouviu).

O caso é sério e não será o único.

Não querendo entrar em pedagogias, muito menos em analogias nostálgicas "ah e tal no meu tempo é que era", tento ser crítico e pragmático o suficiente para admitir que os tempos são outros, mas os valores da educação, do sentido de responsabilidade, do compromisso terão que ser subjogados à insignificância?

Para a formação de um ser humano e de um futuro profissional, são os pilares base, estou certo disso. Estou certo também que não é na escola que se incute tal disciplina, a escola instrui a família educa.

Talvez a juventude de hoje, habituada ao instantâneo e fácil, esteja a ser formada numa base de desculpabilização do chamado "tanto faz”. Embora não seja justo generalizar, mas aqueles que querem fazer do carpe diem a sua máxima diária, ou gozar da boa vida enquanto a têm, que façam, que gozem, mas que não inoportunem quem trabalha e de preferência não me apareçam à frente!

Mas como a vida segue ,estás desculpada!