PAI NOSSO QUE ESTAIS NO CÉU, SANTIFICADO SEJA O VOSSO..

Digamos que, em pleno séc. XXI, o tema «Motivação» continua a ser tabu. Para espanto ou desagrado do leitor este continua a ser um debate que estremece os grandes velhos do Restelo, de sorriso amarelo. 
“Gosto de falar no plural, eu e a minha equipa“ ou "não me posso esquecer da minha equipa, eles são o mais importante para mim" estescontinuam a ser dos jargões mais utilizados para agrado das revistas cor-de-rosa e consequente vénia dos transeuntes menos informados, cá do burgo. A ironia está lá sempre, disfarçada por entre algumas patacoadas nervosas. Por cá, do outro lado da civilização menos representada, embora mais representativa, existe um certo desprezo para com essas lindas frases (lindas mesmo!) , porque na prática, sabemos que se resume (na maior parte das vezes) a um mero SLOGAN político. Nos casos mais sensíveis uma lágrima pode cair do canto do olho, mas depois passa. 
Mas afinal o que é isso de motivação ? Pagar uma bifana e uma palmadinha nas costas? Não. Um sor…

Crónica Tuga Gourmet - A Arte da Imitação

A imitação pode ser, conforme os casos, um elogio ou um insulto. Quando perguntaram, numa entrevista, a Ferran Adrià, o melhor chef do mundo, o que pensava dos chefs que o imitavam, este respondeu: “Penso que seria melhor que os jovens chefs tentassem encontrar a sua própria inspiração, embora eu entenda que isso não seja muito fácil. A imitação não é a verdadeira solução.”


Se virmos a imitação como uma forma de elogio, e, nesse caso, podemos chamar-lhe inspiração, devemos ter em conta que, ao fazê-lo, podemos não conseguir fazê-lo da forma mais correcta e elogiosa e que, consequentemente, poderemos receber críticas menos positivas. No mundo da Cozinha, um passo em falso pode ser a chamada “morte do artista”. Por isso, os que não conseguem a imitação verdadeira de forma a poderem singrar no mundo gastronómico, optam, muitas vezes, por criticar aqueles cuja fama, embora admirem, não conseguem alcançar através da simples e fácil imitação.

Ferran Adrià diz que “… os jovens chefs querem alcançar o sucesso imediato, mesmo que ainda não conheçam bem todas as bases da cozinha, querem ir demasiado depressa, sem perder o tempo para alcançar a experiência e formar uma verdadeira filosofia de trabalho”. A via mais fácil pode, muitas vezes, não dar os resultados pretendidos. Daí que surjam demasiadas e duras críticas ao trabalho de chefs cujo produto do seu trabalho é demasiado “complexo” para poder ser imitado ou mesmo ultrapassado por meros aspirantes a cozinheiros que, além de não terem a experiência necessária para poderem ser grandes chefs, não querem, sejamos claros, trabalhar para poderem ser o que os outros conseguiram ser através de trabalho árduo, estudo e esforço.

Mais uma vez citando Adrià “ estes chefs deveriam, durante algum tempo, munir-se de ferramentas essenciais para ser um grande chef: cultura e uma verdadeira filosofia de trabalho. Levei mais de vinte anos para ter os conhecimentos que tenho e a forjar a minha própria filosofia de trabalho. É um pouco como uma pedra que esculpo todos os dias com as minhas ferramentas de trabalho.” Devemos acrescentar que dedicação e humildade são mais duas ferramentas essenciais para qualquer chef que se preze conseguir subir e vencer no mundo gastronómico.

Esta ideia é aquela que deveria ser imitada, não apenas o trabalho final de chefs que levaram mais de metade de uma vida a conseguirem chegar onde estão. E, quando não se consegue chegar rapidamente a um sítio ou ao sucesso de outros, quando não se consegue inovar imitando os outros, não se deveria também reduzir o “nosso” trabalho e filosofia à crítica mordaz e destrutiva do trabalho dos outros.

Estes chefs deveriam inspirar, não apenas ser alvo de imitação e, quando esta falha, crítica. É difícil aprender o que achamos que já sabemos. O caminho mais fácil não é, geralmente, o caminho mais acertado. E Adrià resume tudo isto a: “o primeiro prato é arte, o segundo é imitação.”

Citações: Magazine Références, nº 15
Imagem: blogs.lne.es/luismariaalonso/2010/01/